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Feita em um guardanapo, depois de ler a última edição da revista.



Escrito por marco jacobsen às 15h33
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Escrito por marco jacobsen às 15h30
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Escrito por marco jacobsen às 15h24
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Escrito por marco jacobsen às 15h23
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Marco Jacobsen por Tiago Recchia



Escrito por marco jacobsen às 15h23
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Rogério Pereira

ilustração: Ricardo Humberto

Eu, Tarzan

Na solidão da casa, olho fixamente para a televisão desligada. A luz entra pela janela e impulsiona meu reflexo no negrume do aparelho sem vida. Não há ninguém lá dentro — nem novela, nem futebol, nem filme, nem desenho, apenas nada: o meu reflexo. Muitos já disseram que me pareço com o Visconde de Sabugosa, do Sítio do Picapau Amarelo, ou o Salsicha, do Scooby Doo. Concordo: reveste-me o esqueleto um desajeitado medroso. Mas agora sou apenas um menino a lembrar-se de uma tevê preto e branco.

 

A notícia causou-nos impaciência e alegria. A primeira televisão de nossas vidas chegaria em breve. Quando o caminhão despontou pela ruazinha de pedras, ladeada por cedros e impregnada do cheiro das flores, corremos feito miseráveis à espera de comida. Dificilmente, lembramos do primeiro encontro com algo que sempre esteve conosco. Do primeiro impacto daquilo que ali estava a nos esperar, a compor a vida. As novidades, o inesperado, marcam-nos a lembrança. É claro que ninguém esquece coisas importantes de um passado a nos acompanhar: a vitrola do pai, o secador de cabelos pré-histórico da mãe, a boneca zarolha da irmã, o carrinho desbeiçado do irmão, entre outras tralhas que, mesmo destruídas pelo tempo, nos perseguem vida afora.

O pai colocou a enorme caixa de papelão no centro da sala. Nela, consegui ler em letras compridas: Telefunken. Tive alguma dificuldade para decifrar a estranha união de sílabas. A leitura saiu-me aos solavancos. Aos 9 anos, orgulhava-me de saber ler e escrever. Lia e escrevia melhor que meus pais. Acho que cheguei à idade adulta muito cedo. A tesoura de costura da mãe destruiu lacres e fitas adesivas. Da caixa, saltaram pequenos barrotes de isopor — a proteção para aquele aparelho que tornaria infinitas as nossas distâncias. Além de fios e da antena, um manual. O pai olhou-o desconfiado. Continha instruções em japonês, inglês, alemão, espanhol e português. Não entendíamos bem nenhum dos idiomas. A gaveta do criado-mudo foi o seu paradeiro. Ao fim, era tudo muito simples: bastava engatar a antena, colocá-la sobre a tevê, enfiar o rabo do animal na tomada e ligar. Em seguida, girar uma rodela (parecida com uma cebola cortada) e sintonizar a emissora. Outros botões comandavam o volume e faixas que, às vezes, corriam pela tela. Ao ligar, a primeira decepção: o mundo aprisionado naquela caixa era preto e branco. Um desastre, principalmente a uma família que vivia a trabalhar numa colorida floricultura. Era mais barata, assim pálida, sem a vivacidade das cores. Eu desconhecia o meu daltonismo. Com o tempo, aprendi a fugir das cores que insistem em driblar meus olhos.

Logo, a decepção cromática deu lugar ao êxtase. Naquela manhã do início da década de 1980, assisti ao meu primeiro desenho animado. Ou ao primeiro de que me lembro. Um homem seminu agarrava-se a um cipó e viajava por uma floresta, cruzava rios, enfrentava leões e inimigos selvagens. Quando em perigo extremo, pedia ajuda a seus amigos animais com um inesquecível grito: ooooooooooooooooh. O berro invadia-me os ouvidos e espalhava-se pelos arredores. Criado e recém-saído do meio do mato, sentia-me feliz com a floresta enclausurada na tevê. Tive uma infância nostálgica.

•••

Ao sinal da escola, corria feito uma besta. Suava baldes até chegar em casa a tempo. Em junho de 1982, tinha de estar diante da Telefunken por volta do meio-dia. Quando colocava os pés na sala, as seleções já estavam perfiladas para o hino nacional. Gente de países muito estranhos. Lugares que nem imaginava existirem. Rostos multifacetados cantavam coisas ininteligíveis. Pareciam que estavam lendo o manual da nossa televisão. Eram dois jogos por dia: um ao meio-dia, outro à tarde. Nunca fui tão feliz por estudar de manhã. Após assistir às partidas, corríamos para o campinho de terra com nossas bolas de plástico. Éramos Zico, Sócrates e Falcão — nossos preferidos. Os mais metidos, entre os quais me incluía, gritavam também nomes esquisitos: Platini, Maradona, Boniek, Lato, Plaff, Kiss, Keegan, Dasayev, Littbarski, Cabrini, Arconada, Prohaska, Arzu… Hoje, não faço ideia da pronúncia com que estes nomes saíam de nossas bocas, onde as cáries já começavam a cavoucar alguns túmulos.

No início de julho, a Telefunken trouxe-me a primeira grande tristeza. Em preto e branco Itália e Brasil se enfrentaram. Até ali, o Brasil massacrara a URSS (um time de letrinhas), Escócia (diziam que usavam saias), Nova Zelândia (aborígines, é claro) e Argentina (eternos fregueses). Perdemos por 3 a 2, três gols de Paolo Rossi. Esta história é conhecida até por quem não gosta de futebol. Naquele dia, as assinaturas na tela da tevê não foram suficientes. Apenas Sócrates e Falcão deixaram seus rabiscos na minha Telefunken. Aquelas assinaturas a cada gol eram o máximo da tecnologia. Eu sabia ler. Fui ao campinho de futebol e gritei bem alto Hintermaier. Não lembro se a pronúncia saiu correta.

•••

Antes de sentar para o jantar, a pergunta: “Cadê o álbum?”. M. veio a minha casa acompanhado da esposa e do filho. Nós estudamos juntos na infância. Nossas esposas estudaram juntas na faculdade. Nossos filhos estudam juntos no maternal. Quase um roteiro de novela das oito. M. é ilustrador. Na escola, ensinou-me a fazer a caricatura do Tancredo Neves. Juntos, editamos o primeiro e único jornal de nossa geração do Cesmag nos anos 1980. Desenhamos na capa todos os professores (inclusive o diretor) de cócoras a jogar bolinha de gude. Acabava ali a nossa curta carreira de jornalistas infantis. Depois, a retomamos na vida adulta. Mas, aí, já não tinha a mesma graça.

Em suas mãos, o álbum transformou-se em nostalgia. Percorremos juntos nossas infâncias e a grande tristeza causada pelos italianos naquele 5 de julho no estádio Sarriá, na Espanha. Entre as 300 figurinhas, Zico tem o olhar assustado; Camacho está entediado; Kempes esqueceu de cortar o cabelo; Breitner carrega uma barba desalinhada; Zoff lembra um avô; Mc Dermott acabara de escapar do manicômio; Blokhine sonha fugir com a noiva para um país livre; Van der Eycken precisa usar aparelho ortodôntico; Meszaros tem cara de pirata; Pasic pensa na filha; Jalocha trama uma maneira de se livrar da sogra; Jurkemik é um espião disfarçado de jogador de futebol; Janvion queria ser cantor; Pezzey está arrependido; Rough tem cara de sogra; Jennings também; Velazquez não esquece os anos 1970; Caszely deseja ser senador; Urquia é curioso; Rugama é feio; Turner também; Al Jasem tem o maior nariz da Copa; Cerbah é a cara de Belloumi; Tokoto é a última figurinha.

Antes de iniciar o jantar, M. devolve-me o álbum. Noto que faltam quatro figurinhas: Schumacher, Millecamps, Meeuws e Buljan. Tenho muitos álbuns de figurinhas. Nenhum está completo. Seremos sempre esta figurinha que falta.

http://vidabreve.com/

 



Escrito por marco jacobsen às 11h45
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